Arte, ciência e tecnologia como ferramentas para o desenvolvimento humano

Saulo Barreto é um engenheiro visionário que largou a vida de professor de engenharia para fundar o Instituto de Pesquisa em Tecnologia e Inovação, IPTI, que atua em Santa Luzia do Itanhy, Sergipe. O Instituto tem o objetivo de desenvolver soluções integradas entre tecnologia e processos humanos, tendo como áreas prioritárias a educação, saúde pública e economias criativas.

Saulo é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Sergipe e obteve título de mestre e doutor em Estruturas pela Universidade de São Paulo, com passagens pela Technische Universität Braunschweig (Alemanha) e Columbia University (Estados Unidos).

Com a objetividade, inteligência e clareza de um engenheiro e a paixão e vontade de mudança de um visionário, Saulo quer transformar a pequena cidade no litoral de Sergipe (que possui um dos IDH mas baixos do país), na cidade mais criativa do Brasil até 2020. O engenheiro está sempre em busca de soluções inteligentes com foco em tecnologia social, para transformar a realidade do município.

Vários projetos bem sucedidos já foram idealizados e colocados em prática. Um exemplo é o CLOC (Criatividade-Logica-Oportunidade-Crescimento), apoiado pela BrazilFoundation, que promove oportunidade de aprendizado na área de lógica e programação computacional.
A seguir, a entrevista que fizemos com Saulo.

Porque você decidiu criar o IPTI?
O ponto de partida para criar o IPTI  foi quando comecei a desenvolver soluções educacionais em engenharia. Foi quando eu comecei a me encantar com a possibilidade de utilizar a ciência e a tecnologia para o desenvolvimento social e encontrar soluções inteligentes para as pessoas ao meu redor. Mas o projeto do jeito que ele é hoje, só nasceu mesmo quando eu e a Renata (co-fundadora) tivemos a ideia de criar uma instituição no Brasil que usasse ciência e tecnologia para a inclusão social e fosse auto sustentável; algo como uma incubadora ideal de negócios, inovação e desenvolvimento, que utilizasse os conceitos de arte, ciência e tecnologia para o desenvolvimento humano.

E porque instalá-lo em Santa Luzia do Itanhy?
Quando as pessoas vão em busca de lugares como esse, elas vão para os grandes centros, porque acham que a inovação necessita do apoio de uma grande cidade. Mas eu já penso o contrário. Na linha dos nossos projetos, quando mais pobre e mais isolado for, melhor. Achamos Santa Luzia o lugar ideal pois, apesar de longe, é de fácil acesso, pequeno, bonito e muito pobre.

Como foi o desenvolvimento dos projetos no IPTI?
Escolhemos educação, saúde e economia criativa como os eixos de atuação principais dos projetos. Porém, queríamos realizá-los de uma forma sistêmica em que cada projeto dialogasse um com o outro para criar uma espécie de espiral evolutiva. Felizmente, num intervalo de seis meses, um ano no máximo, conseguimos o apoio para um projeto em cada uma das áreas. Foi nesse momento que a gente começou, de fato, a aplicar o que hoje somos referência, que é o que chamamos de tecnologia social: um modelo em que você identifica um problema que a sociedade tem e desenvolve soluções em parceria com a sociedade local. Nós trazemos o nosso conhecimento científico e tecnológico, mas ouvimos o conhecimento local das pessoas. Dessa forma, construímos soluções inteligentes e eficientes.

Quais são os maiores desafios agora que já existem tantos projetos bem sucedidos em andamento, como o CLOC, o Agabê e o Arte Naturalista?
O nosso grande desafio hoje é transformar todo esse conhecimento construído junto com a população local de Santa Luzia, em negócio. Estamos tentando captar recursos para criar uma camada de empreendedorismo na cidade para que esses meninos possam encontrar empreendedores nessa região. A partir daí, queremos criar um projeto de aceleração de start ups, para quem sabe, daqui há dois ou quatro anos, pipocarem as primeiras empresas de base criativa na cidade.

Como vocês pretendem incentivar o empreendedorismo numa cidade como Santa Luzia do Itanhy?
Todas as pessoas que estão em nossos projetos são muito boas no que fazem, mas eles não tem o DNA de empreendedor. A ideia é que a gente possa identificar jovens talentos na área de empreendedorismo, pessoas que tenham esse fogo no olho de querer vencer e dar à eles uma formação nessa área e também na área digital, para que eles possam extrair o máximo possível do espaço digital. Assim, visamos pegar esse talento que já existe hoje – programação de software, ilustração e audiovisual, etc – e junto com eles, criar parceria e montar negócios.

Você fala muito de economia criativa como um dos principais focos dos projetos. Por que?
O nosso carro chefe é a economia criativa porque eles tem que ter uma oportunidade de trabalho e renda qualificada no lugar onde nasceram. A economia criativa tem um componente de preservação ambiental muito explícito. Como ela trabalha diretamente com identidade e artigos intangíveis, como paisagens, saberes, cultura e as referencias locais, ela requalifica muito, de forma muito impactante, a relação entre o morador e seu entorno. Isso é um elemento fundamental. Todos os nossos projetos visam a questão dos negócios sociais, como por exemplo, o caso do Agabê: nós fizemos a tecnologia social, ela acabou sendo bem sucedida e agora estamos reaplicando-a. Em meados desse ano vamos aplicá-la em um outro município de Sergipe e em Guarulhos, SP. Os dois casos com recursos privados. Quem vai treinar as pessoas desses municípios são as técnicas de enfermagem de Santa Luzia do Itanhy.

Qual é o seu sonho?
Meu sonho é que Santa Luzia do Itanhy se transforme num grande vulcão de conhecimento, de soluções em tecnologias sociais que compartilhe o conhecimento com outras pessoas de outros lugares, e isso tenha um retorno financeiro para todas as pessoas que participarem desse processo. Que a gente construa essa realidade de que Santa Luzia de fato se transforme numa referencia de que arte, ciência e tecnologia podem ser vetores inovadores de promoção do desenvolvimento humano.

Também tem a questão da criação da autoestima e do desejo, que eu acho muito importante incentivar. Nós não fazemos ideia do que é não ter um sonho. Nós temos nossos sonhos pessoais e vamos construindo um repertório de referências ao longo da vida. Mas quando não há nenhuma referência, e não se tem sonho, essa é a pior coisa que pode acontecer para o ser humano. E é nesse sentido que a gente tenta provocar as pessoas. Por isso a gente tenta motivá-las de alguma forma. Acontece que para algumas delas esses são os nossos sonhos, não os delas. Mas mesmo assim, com isso, elas começam a perceber, a criar uma referencia do que é o sonho delas. É um processo natural. Se não fosse por isso, eu ainda seria um engenheiro civil.

Para saber mais sobre os projetos do IPTI, acesse:

Agabê (combate à anemias nas escolas)
http://www.youtube.com/watch?v=N5hVNhsXhP8&app=desktop

Arte Naturalista (fase 1)
http://vimeo.com/81619671

Cultura em Foco
www.youtube.com/watch?v=Rj_uG6h6mjE

CLOC
http://cloc-br.blogspot.com.br/

 

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